17 de setembro de 2020
Aditivando carteiras de ações com criptoativos

“Aditivando carteiras de ações com criptoativos" é o título do artigo assinado pelo nosso Portfolio Manager, João Marco Braga da Cunha publicado, hoje, no Valor Econômico.

 Na teoria de finanças e economia comportamentais, há um interessante fenômeno, descrito pela primeira vez pelo ganhador do prêmio Nobel de Economia Richard Thaler.


 A chamada contabilidade mental ocorre quando os agentes segregam mentalmente seu dinheiro ou suas aplicações em compartimentos isolados uns dos outros e, com isso, tomam decisões que podem não fazer sentido quando considerado o todo. Em alguns casos, isso pode ser bastante prejudicial como, por exemplo, quando uma pessoa guarda dinheiro para alguma finalidade específica e, em outra caixinha mental, compra pagando em prestações com uma taxa de juros maior que a que ele recebe nas suas economias. Na prática, essa pessoa está jogando dinheiro fora simplesmente.

 De qualquer forma, é comum, até mesmo entre investidores profissionais bem formados, a separação entre uma carteira de curto prazo, mais conservadora e voltada para geração de fluxo de caixa, e uma de longo prazo, com foco nos ganhos de capital. Essas carteiras de longo prazo costumam ter os investimentos mais voláteis, notadamente, ações. Há uma vasta literatura mostrando que, em países normais (Brasil exclusive), o investimento em ações paga um prêmio ao investidor que carrega a posição por períodos alongados.

Na década passada, consolidou-se uma nova classe de ativos ainda mais volátil e mais rentável que as ações: os criptoativos. Além disso, possuem correlações extremamente baixas com as demais classes, o que os torna ótimas opções para diversificação de carteiras (ou subcarteiras). Uma pergunta pertinente nesse contexto é: qual é o impacto da adição de criptoativos em uma (sub)carteira de ações? 

Para investigar essa questão, podemos olhar para cada um dos 22 índices de ações divulgados pela B3 e estudar como eles se comportam somados a uma parcela do HDAI (Hashdex Digital Assets Index), índice que reúne diferentes criptoativos. Mais especificamente, podemos determinar o percentual de HDAI que mantém a volatilidade dos retornos constante e observar o que acontece com o retorno médio obtido. Realizamos esse experimento para o período entre dezembro de 2016 e junho de 2020, considerando rebalanceamentos mensais.

Como era de se esperar, os principais índices nacionais, o Ibovespa e o IBrX-50 tiveram comportamento bastante similar à média geral dos demais índices. Ambos poderiam receber pouco menos de 20% de HDAI sem aumentar sua volatilidade no período. Essa alocação teria quase triplicado seus retornos anualizados. 

O BDRX (índice de empresas que são listadas em bolsas estrangeiras negociados na B3) foi o que apresentou, no período de análise, o maior retorno, a menor proporcionado um aumento de 8,1% no seu retorno anualizado, o que é bastante significativo.

Quando olhamos para os índices genuinamente locais, o panorama é bem diferente. Os retornos são mais baixos (média de 16,8%) e as volatilidades são todas maiores que 25%, exceto a do IEEX, índice do setor elétrico, um dos mais resilientes historicamente. 

Já a correlação com o HDAI é de um dígito para todos menos o IMAT, o índice de empresas de insumos básicos, e o INDX, do setor industrial, ambos altamente expostos ao dólar. São justamente esses dois índices os únicos cuja parcela de HDAI que manteria a volatilidade é menor que 15% e também cujos ganhos em termos de retorno anualizado seria menor que 20%. Ou seja, para todos os demais 19 índices, a adição de HDAI mantendo a volatilidade constante teria proporcionado retorno adicionais de mais de 20% ao ano. Um resultado inegavelmente relevante.

No caso mais extremo, o IMOB, índice de empresas do setor imobiliário, que tinha a maior volatilidade, comportaria aproximadamente um terço de alocação em HDAI sem aumentar a medida de risco e, consequentemente, teria apurado um retorno adicional de incríveis 47,5% ao ano. 

Para sermos justos, é importante ressaltar que algo próximo a um terço da rentabilidade do HDAI em reais no período considerado é devido ao efeito do câmbio. 

Os números acima são bastante contundentes. No entanto, essas são águas passadas e, como diz a famosa letra de Ronaldo Bastos, sabemos que “nada será como antes amanhã”. O que podemos dizer com base nesse estudo é que uma adição de uma parcela entre 10% e 20% de criptoativos dificilmente trará aumento da volatilidade para (sub)carteiras de ações brasileiras e que, caso os ventos sigam soprando favoravelmente para esses ativos digitais, essa fração relativamente pequena será um belo aditivo em termos de rentabilidade. 

De volta ao tema de finanças e economia comportamentais, outro fenômeno bastante conhecido e documentado é o chamado viés do “status quo” que, segundo investidores a acomodarem-se com a situação como está. Assim como os demais vieses, esse tende a ser um detrator de performance dos investimentos. Pense nisso.