11 de maio de 2021
NFTs, autenticidade e propriedade

João Marco Braga da Cunha

Gestor de Portfólios na Hashdex

Texto publicado originalmente no Valor Econômico

 

 

Qualquer um pode, gratuitamente, ter uma cópia digital de determinadas mercadorias cuja única diferença para a original é um registro em blockchain que garante autenticidade

 

No dia 21 de agosto de 1911, a Mona Lisa foi furtada do Museu do Louvre em Paris. Segundo uma matéria publicada cerca de vinte anos depois, assim que a notícia do crime se espalhou Eduardo de Valfierno ofereceu a obra no mercado negro e encontrou interessados.

Ao todo, Valfierno teria vendido seis “Giocondas” para compradores de diferentes partes do mundo. As falsificações eram trabalho do artista Yves Chaudron, que se fazia passar por estudante de arte para, diante da verdadeira obra exposta, reproduzí-la nos mínimos detalhes.

 A parte mais engenhosa do plano foi convencer Vincenzo Peruggia, um italiano que trabalhava no museu, a roubar a obra de Leonardo da Vinci para devolvê-la à Itália (a despeito de ter sido um presente do grande mestre renascentista ao Rei Francisco I de França). O papel do roubo no plano era, simplesmente, criar a ilusão de autenticidade nas falsificações e, assim, multiplicar muitas vezes o preço. Cada peça teria sido vendida por centenas de milhares de dólares, que equivalem a alguns milhões nos dias de hoje.

A autenticidade é um componente importante na formação do valor subjetivo que as pessoas atribuem a todo tipo de coisa, desde que o mundo é mundo. Platão, no século IV a.C., já descrevia a busca do ser humano pelo bom, belo e verdadeiro. Agora, no século XXI, uma tecnologia com poucos anos de existência traz novas cores aos conceitos de autenticidade e de propriedade.

Os NFTs, da sigla em inglês para tokens não fungíveis, são uma subclasse dos criptoativos. O que os diferencia dos demais é o fato de serem únicos e não intercambiáveis. O bitcoin, por exemplo, é concebido para ser fungível, isso é, cada bitcoin é semelhante aos demais e, portanto, podem ser trocados um por um sem problemas. Já com os NFTs, isso não é verdade, uma vez que cada qual é individual. Tal propriedade torna esse tipo de ativos digitais ideal para a criação de colecionáveis virtuais.

Em 2017, houve o primeiro caso de uso de NFTs com maior destaque, com um jogo virtual chamado CryptoKitties. Nele, cada token representava um gato virtual com características únicas que pode ser cruzado com outros gatos, negociado ou, simplesmente, colecionado pelo seu detentor. O jogo, que é uma aplicação que roda na blockchain do ethereum, chegou a fazer tamanho sucesso que congestionou a rede e inflacionou as transações na mesma.

Mais recentemente, os NFTs voltaram às manchetes, dessa vez, com a chamada Crypto Art. Nessa categoria, como o nome sugere, estão obras de arte digitais que são associadas aos respectivos NFTs e, dessa forma, negociadas. Tal mercado cresceu consistentemente ao longo de 2020, artistas digitais foram ganhando notoriedade e transações de obras com valores cada vez maiores foram registrados. Em março, o NFT da obra “Everyday: The First 5000 Days”, do artista Mike Winkelmann, conhecido como Beeple, foi vendido em um leilão realizado na Christie's por nada menos que US$ 69,3 milhões, fazendo da obra a terceira mais cara já negociada com o autor ainda vivo.

Essa transação recorde chamou muita atenção, mas outras operações menos vultosas com NFTs também atraíram holofotes. O primeiro tweet, uma coluna no NYT e colecionáveis esportivos digitais, alguns semelhantes aos tradicionais cards, das ligas americanas de basquete e beisebol, todos negociados na forma de NFTs, também deram o que falar. O burburinho acarretou numa proliferação exacerbada de NFTs, uns bizarros, outros pouco relevantes.

De todo modo, é interessante como todos esses casos colocam sob uma nova perspectiva o nosso senso de propriedade sobre algo. Qualquer um pode, gratuitamente, ter uma cópia digital dessas mercadorias cuja única diferença para a original é um registro em blockchain que garante a autenticidade. É por isso que se paga, e nada mais

Há, ainda, um próximo passo na utilização dos NFTs que tem tudo para ser ainda mais disruptivo. Sua estrutura torna os NFTs um meio ideal para representar ativos reais como imóveis, automóveis e outros bens de valor, facilitando seu registro e negociação, além de permitir, por exemplo, o uso como colateral em protocolos de DeFi (finanças descentralizadas). Obsoletar os cartórios teria um impacto gigantesco na nossa vida cotidiana.

Retomando o caso do roubo da Mona Lisa, cuja lista de suspeitos incluia Pablo Picasso, ainda pairam dúvidas sobre a veracidade da história das falsificações. Um dos argumentos apontados pelos descrentes é o fato de nenhuma das supostas seis cópias jamais ter vindo a público. Por outro lado, não parece inverossímil que os compradores, após o reaparecimento da peça verdadeira, em 1913, tenham preferido esconder ou mesmo destruir suas falsificações. Além de ser prova de uma malfadada tentativa de envolvimento com o crime, cada uma das falsificações tornou-se, também, um autêntico atestado de tolice.