05 de janeiro de 2021
O Annus Mirabilis dos Criptoativos

 

João Marco Braga da Cunha

Gestor de Portfólios na Hashdex

Texto publicado originalmente no Valor Econômico

 

A expressão latina Annus Mirabilis, que pode ser traduzida como ano maravilhoso, é associada à incrível produção científica de Albert Einstein em 1905. Em quatro artigos publicados no  Annalen der Physik, o físico teórico revolucionou nosso entendimento sobre praticamente tudo. No primeiro e segundo artigos, explicou o efeito fotoelétrico e o movimento Browniano, respectivamente. O seguinte introduziu a Teoria da Relatividade Restrita e, no último, mostrou a relação entre massa e energia, através de sua mais famosa fórmula. O mundo nunca mais seria o mesmo.

 

Cinco anos antes do gênio alemão, um estudante francês chamado Louis Bachelier já havia modelado o movimento Browniano, aplicando-o para descrever a trajetória dos preços dos ativos financeiros. Apesar de ter sido extremamente útil, tal aplicação possui alguns pontos fracos, dentre os quais, a incapacidade de reproduzir as crises agudas que acometem os mercados de tempos em tempos.

 

A grande crise iniciada em 1929 levou o índice Dow Jones a uma queda de quase 90%. Em 2008, a crise originada no setor financeiro e alastrada para a chamada economia real, derrubou o S&P 500 em mais de 50%. O índice só voltou a bater o seu  nível máximo em 2012, até rápido se comparado aos quinze anos que o Dow Jones demorou para se recuperar após 1929.

 

Em certos momentos, 2020 fez muitos investidores acreditarem que seria mais um Annus Horribilis nos mercados financeiros. Quando o mundo foi arrebatado pela pandemia, a busca por refúgio e liquidez por parte dos investidores levou a uma fuga e consequente desvalorização brutal dos ativos de risco. O S&P 500 caiu mais de 30% e nem mesmo o ouro, tido como um safe haven, escapou. A partir do fim de março, porém, os ativos de risco iniciaram um processo de recuperação. Os mais importantes índices de ações do mundo caminham para fechar o ano com bons resultados. Pode não ter sido um ano extraordinário mas foi bem melhor do que se vislumbrou no auge da crise. Para uma classe de ativos, porém, podemos dizer que 2020 foi nada menos do que espetacular: os criptoativos. 

 

No início do ano, houve um primeiro choque mais relevante nos mercados, causado pelo aumento da tensão entre os EUA e o Irã, após a morte do General Soleimani. Na ocasião, ativos arriscados tradicionais sofreram enquanto os principais criptoativos se valorizaram. Esse movimento despertou os defensores na tese de que o Bitcoin seria um safe haven. Porém, à medida que a crise no Oriente Médio foi perdendo espaço para a pandemia como a principal preocupação dos investidores, os movimentos de cripto passaram a acompanhar os ativos de risco tradicionais até que, na primeira quinzena de março, tudo despencou. O Bitcoin, que havia registrado uma alta de cerca de 30% no ano, operando acima dos US$10 mil, caiu abaixo dos US$5 mil. Em um único dia, a queda foi de mais de 30%.

 

Na segunda metade do mês, porém, os criptoativos começaram uma forte recuperação, enquanto as ações mundo afora ainda viviam seus piores dias na crise. Em pouco mais de um mês, o Bitcoin voltou a apresentar retorno positivo no ano. A partir daí, os criptoativos seguiram uma trajetória de alta, mais leve para alguns, como o Bitcoin, e mais acentuada para outros como o Ether (da rede Ethereum). Houve alguns solavancos no meio do caminho, até que, em outubro, iniciou-se um forte ciclo de alta que, em menos de dois meses, levaria o Bitcoin da casa dos US$ 10 mil para próximo dos US$ 20 mil  no dia 30 de novembro, ultrapassando a máxima histórica registrada no auge da bolha de 2017.

 

Por mais que a superação do maior valor já registrado até então seja um evento simbólico importante, não é ele que torna 2020 um ano especial para os criptoativos. Na verdade, ele é mais uma consequência das grandes e boas notícias que o ano trouxe para a classe do que qualquer outra coisa.

 

Em termos de validação e chancela das teses de investimento na classe, tivemos a entrada de investidores altamente renomados, do calibre de Paul Tudor Jones e  Stanley Druckenmiller, além de grandes gestoras como a Renaissance Technologies, AllianceBernstein e Guggenheim. Soma-se a isso os fatos de Microstrategy e Square, listadas na NASDAQ e na NYSE, respectivamente, incluírem o Bitcoin em suas estratégias de caixa, e de S&P Dow Jones e NASDAQ anunciarem a criação dos seus respectivos índices de criptoativos.

 

Do ponto de vista regulatório, um grande avanço ocorreu em julho, quando o representante da agência que regula os bancos nos EUA declarou que esses poderiam prestar serviços de custódia de criptoativos para seus clientes. O segmento de Finanças Descentralizados (DeFi) floresceu extraordinariamente, com o total de criptoativos dados como colateral saltando de menos de US$ 700 milhões no início do ano para mais de US$ 14 bilhões agora. Como a maioria dos protocolos de DeFi rodam na rede Ethereum, isso ajuda a entender porque o Ether valorizou-se mais de 350% até o início de dezembro. As características de descentralização, resistência ao confisco e a operabilidade através das fronteiras dos criptoativos mostraram sua importância em quatro países em situação de estresse geopolítico ou econômico: Irã, Hong Kong, Argentina e Venezuela. 

 

Todos esses eventos foram marcantes. Porém, o grande acontecimento do ano para a classe - e com maior impacto nos preços - foi o anúncio de que o PayPal passaria a oferecer serviços de negociação e custódia de criptoativos para seus clientes. O anúncio significou que centenas de milhões de usuários do sistema passariam a poder comprar e vender criptoativos com extrema facilidade, além de poder usar esses criptoativos para compras em 26 milhões de estabelecimentos. Um avanço sem precedentes para a adoção de cripto que levou a classe a fechar o Annus Mirabilis com chave de ouro.

 

De volta 1905, o segundo artigo de Einstein naquele ano foi a pá de cal na controvérsia sobre a existência ou não dos átomos. Da mesma forma, os acontecimentos de 2020 parecem ter convencido a grande maioria daqueles que ainda tinham dúvidas quanto aos criptoativos serem classe de ativos. Como Einstein bem disse, “a verdade é aquilo que resiste ao teste da experiência”. Nos testes que 2020 impôs, os criptoativos passaram com louvor.