Artigos e Opiniões
11 de setembro de 2020
Tecnologia supera escola que caducou

Tecnologia supera escola que caducou

Educação custa a desprender-se do modelo do século passado

João Marco Braga da Cunha

 

Isaac Asimov, o visionário autor de ficção científica, escreveu um ensaio nos anos 1970 no qual afirmou: "A autoeducação é, acredito firmemente, o único tipo de educação que existe. A única função de uma escola é facilitar a autoeducação; falhando nisso, não faz nada." Como muitas das idéias de Asimov, essa faz mais sentido hoje do que na época.

Uma gigantesca revolução está em curso. A aprendizagem de máquina, cujos primeiros conceitos remontam aos anos 1940, entrou em uma rota de desenvolvimento extremamente acelerado desde a virada do século. Hoje, os computadores são capazes de feitos que pareceriam ficção científica há apenas alguns anos. Sistemas que combinam extensas bases de dados, identificação de padrões e classificação em grupos já são usados com sucesso em situações do nosso cotidiano, desde a detecção de operações fraudulentas com nossos cartões de crédito até a sugestão de artistas que não conhecíamos nos nossos aplicativos de música. Os algoritmos por trás dessas e de inúmeras outras aplicações são capazes de reconhecer o nosso padrão de comportamento individual e identificar outras pessoas com padrões similares, o que possibilita o cruzamento de informações dentro desses grupos com alto grau de homogeneidade.

Ao mesmo tempo em que vivenciamos esses avanços maravilhosos, testemunhamos a dificuldade do sistema educacional em desprender-se do modelo que vigorou ao longo de todo o século passado. O professor enfrenta a árdua tarefa de transmitir o conhecimento para dezenas de alunos simultaneamente. A forma e a velocidade nas quais o conteúdo é apresentado são, por razões óbvias, iguais para todos da classe, a despeito das experiências, preferências e aptidões muito distintas. Por mais que haja algum nível de personalização na relação com cada aluno, isso é extremamente limitado pela disponibilidade de tempo do professor. Os computadores podem ajudar muito.

Imagine que houvesse, para cada tópico da grade curricular, dezenas de diferentes aulas em vídeo, com uma gama abrangente de abordagens e didáticas. Adicione um algoritmo que indica, para cada aluno, qual é a aula mais adequada para cada tópico. Por fim, some um grande banco de dados de questões que seriam usadas para medir a absorção do aluno após a exposição. Essa última camada é fundamental, pois possibilita a retroalimentação do sistema, refinando o “entendimento” do algoritmo, tanto sobre o aluno, quanto sobre a aula. Ou seja, ela permitiria que a escola aprendesse a melhor forma de ensinar. Essa é a escola do futuro: totalmente individualizada, porém altamente escalável e, por que não?, massificável.

Evidentemente, essa nova escola implicaria uma reinvenção do papel do professor, que, sem a atribuição de lecionar, poderia focar os esforços no acompanhamento, motivação e disciplinação dos alunos, e despender um tempo maior na relação mais personalizada com cada aluno. Também é evidente que esse novo modelo só é aplicável a alunos a partir de um certo grau de maturidade que, por sua vez, é bastante correlacionada à faixa etária.

Repensar a escola diante das novas possibilidades que a tecnologia nos oferece é uma obrigação da geração presente. Nesse processo, precisamos estar abertos para novas (e velhas) ideias. Como também disse Asimov, “o dia em que você para de aprender é o dia em que começa a decair”. Essa escola, que não aprende há mais de um século, caducou.