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Setembro: Alta contra o vento

Marcelo Romero

Comentários do Gestor

O roteiro macro do mês que passou foi hostil para ativos de risco, e cripto reagiu pouco a ele. Em setembro, o Federal Reserve subiu os juros pela primeira vez desde 2023, o Banco do Japão levou sua taxa ao maior nível em 31 anos, o Treasury de 10 anos rompeu 5%, e o Senado americano postergou o CLARITY Act. Ainda assim, o Nasdaq CME Crypto Index (NCI) avançou 6,61% no mês, o segundo ganho mensal consecutivo, e superou o Bitcoin (BTC) por três semanas seguidas. 

O aperto monetário foi o tema forte do mês, com FOMC elevando a taxa básica em 25 pontos-base, para 3,75%-4,00%, em decisão unânime (a primeira alta desde julho de 2023). O presidente Kevin Warsh foi direto ao afirmar que "a inflação está alta demais, e há tempo demais". O CPI de agosto, divulgado dias antes do aumento das taxas, havia acelerado a 3,4% em 12 meses, puxado pela energia, com o petróleo de volta acima de US$ 100 após novos ataques americanos ao Irã, e as projeções do comitê passaram a indicar mais uma alta até o fim do ano. Dois dias depois, o BOJ subiu sua taxa a 1,25%, o maior nível desde 1995, retirando mais um pilar de liquidez global.

Os juros longos reagiram de imediato: o Treasury de 10 anos encerrou o mês acima de 5,2%, na maior alta mensal desde setembro de 2023, e o dólar se fortaleceu. O S&P 500 recuou 0,45%, com o setor financeiro liderando as perdas, enquanto o Nasdaq-100 avançou 3,23%, sustentado por resultados ligados à IA e semicondutores. O ouro foi a principal vítima da reprecificação dos juros e caiu 6,84%, para perto de US$ 4.300 por onça, devolvendo boa parte do ganho de agosto. Em um ambiente de juro real em alta e dólar forte, o metal se comportou como o manual prevê. 

Cripto não teve comportamento similar, com o BTC subindo 5,83% em um mês de duas metades: na primeira quinzena, o ativo cedeu à combinação de inflação, petróleo e expectativa de alta de juros, aproximando-se de US$ 77.000 na semana do CPI, e os ETFs de Bitcoin à vista nos EUA registraram saídas de cerca de US$ 750 milhões nos dois dias em torno da votação do CLARITY Act. A virada veio a partir de 17 de setembro, com a alta do Fed já dada e a decisão do Senado consumada: os mesmos veículos captaram cerca de US$ 6,6 bilhões nas duas últimas semanas, incluindo US$ 1 bilhão em um único dia em 21 de setembro, a maior entrada diária desde a máxima histórica de outubro de 2025. Com isso, o saldo acumulado de 2026 nesses ETFs voltou ao terreno positivo, revertendo um déficit que chegou a US$ 5,7 bilhões em julho. Em paralelo, tivemos outros episódios relevantes, como a Strategy retomando as compras após dez semanas e a Câmara aprovando o projeto que codifica a reserva estratégica de BTC, travando por 20 anos os ativos obtidos em apreensões. 

Além disso, o token da rede Ethereum (ETH) ganhou 7,54%, sendo o único ativo do NCI positivo na semana. Vale citar que a próxima grande atualização da rede, foi agendada para a testnet Sepolia em 6 de outubro, com o lançamento em sua mainnet prevista para o quarto trimestre. Entre os demais constituintes, SOL avançou 13,07%, em um mês em que a rede triplicou o tamanho máximo das transações e começou a testar uma atualização que reduz o tempo de liquidação de 12 segundos para 150 milissegundos. Os constituintes de menor peso lideraram: XLM subiu 26,29%, LINK 24,76%, BCH 23,25% (com salto de 33% apenas na última semana do mês) e ADA 21,60%. Com isso, todos os oito constituintes além do BTC superaram o próprio BTC no mês.

Nos índices temáticos, a amplitude de agosto se manteve: Decentralized Finance (DEFI) liderou o universo com 31,04%, seguido por Digital Culture (META), com 25,24%, e Smart Contract Platforms (WEB3), com 24,20%, todos muito à frente do NCI. O DEFI passou a acumular 25,40% em 2026, de longe o melhor resultado do bloco cripto no ano. Risk Parity Momentum (HAMO) subiu 18,62% e praticamente zerou a perda do ano (-0,41%). A estratégia Gold Bitcoin Risk Parity ficou estável (-0,02%): a queda do ouro anulou quase exatamente a alta do BTC, um retrato fiel do descolamento que discutimos a seguir.

 

Os Dois Relógios do BTC: Ouro e Cripto se Separaram

 

A tabela abaixo ordena o universo pelo desempenho do mês. Em setembro, a direção inverte a lógica de agosto, quando ouro e cripto subiram juntos pelos mesmos vetores: juros longos em queda e dólar fraco. Desta vez, o ouro fechou na lanterna e todo o universo cripto terminou no positivo.

 

 

 

Note que a melhor quinzena do NCI foi justamente aquela em que se concentraram as piores notícias: duas altas de juros e a postergação do marco regulatório mais aguardado pela indústria, sendo a explicação mais provável é que elas já estavam no preço e que faltam vendedores marginais. A amplitude aponta na mesma direção: com os oito constituintes de menor peso e os três índices temáticos à frente do BTC, o que se vê não parece uma rotação defensiva para o ativo mais líquido, mas apetite por risco dentro da própria classe.

Uma forma útil de organizar o que aconteceu é pensar que BTC pode estar operando em dois relógios. Em janelas de semanas, ele responde a liquidez, fluxos e posicionamento, e negocia como ativo de risco. Em janelas de anos, responde à oferta fixa contra moedas que podem ser discricionariamente emitidas, e negocia como reserva de valor. Em setembro, o relógio longo apontava contra o ativo: juros em alta e dólar forte derrubaram o ouro, o representante maduro da mesma tese. Mas o relógio curto dominou, movido pela exaustão dos vendedores, pelo retorno dos fluxos e por um avanço regulatório que veio pelos reguladores, e não pelo Congresso: a SEC criou um regime para negociação on-chain de ações tokenizadas, a CFTC autorizou as firmas sob sua jurisdição a investir em ativos tokenizados e a Câmara aprovou a reserva estratégica. O mercado pode ter concluído que a estrutura de mercado avança mesmo sem o CLARITY Act.

Convém ser honesto com a tensão que isso cria para a tese no curto prazo. Se ouro e BTC vivem uma fase de correlação relativamente alta quando a análise é sobre horizontes mais longos, o descolamento de setembro mostra que essa relação não é sempre observável em horizontes mensais, o que explica por que alocadores com modelos maduros para o ouro por vezes se confundem ao tentar enquadrar o BTC. Por mais que ele possa ser entendido como uma alternativa emergente de se tornar uma espécie de “ouro digital", essas alternativas devem se dimensionar como tal, em alocações de um dígito, mantidas como posição estratégica e rebalanceadas com disciplina. E diferentemente da sua contraparte tradicional, ainda há um lado do dólar que o ouro não captura: enquanto a desdolarização avança nos cofres dos bancos centrais, a dolarização avança nas blockchains, com o estoque de stablecoins acima de US$ 300 bilhões e a atividade on-chain praticamente estável em um ano em que o valor de mercado de cripto caiu pela metade. Para o investidor de índice, as plataformas de smart contracts onde esses dólares são liquidados são a outra metade da carteira, ao lado do BTC, e um índice bem construído captura a escassez e a distribuição sem exigir a escolha de qual lado a próxima década vai recompensar.

 

Olhando à Frente: Outubro e o Segundo Teste dos Juros

 

Ao entrarmos em outubro, quatro fatores devem definir se a resiliência de setembro se sustenta:

A segunda alta do Fed: As projeções do FOMC indicam mais 25 pontos-base até dezembro, e o CPI de setembro dirá se essa alta se confirma. Cripto absorveu a primeira sem sobressaltos; a questão é se o mesmo vale para um ciclo de aperto mais longo, com o Treasury de 10 anos já acima de 5%.

Regulação pelos reguladores: Com o CLARITY Act travado por uma disputa sobre ética, e não sobre a divisão de competências entre SEC e CFTC, o caminho da estrutura de mercado passa a ser administrativo. As primeiras plataformas de ações tokenizadas sob o novo regime da SEC podem surgir no próximo trimestre, e uma renegociação do texto no Senado não pode ser descartada.

Fluxos como confirmação: As entradas de US$ 6,6 bilhões em duas semanas levaram o acumulado de 2026 ao positivo. A sustentação desse ritmo com BTC na faixa de US$ 80.000 a US$ 88.000 pode ser o melhor termômetro para distinguir o reposicionamento estrutural de um movimento tático.

Ouro e BTC: Se os juros seguirem subindo e BTC mantiver o patamar, o argumento de uma demanda independente da tese de debasement ganha força. Se o ouro se recuperar e BTC acompanhar, a correlação de agosto volta ao centro. Qualquer dos dois cenários é informativo.

Setembro não resolveu o ano, e o NCI ainda acumula queda de 6,18% em 2026. Mas o mês pode ter mostrado algo que agosto não mostrou: cripto subiu sem a ajuda do vento macro, e com o ouro soprando em sentido contrário. Se outubro confirmar fluxos e regulação, a alta contra o vento pode deixar de ser uma anomalia para se tornar o sinal mais claro do ano de que a demanda pela classe deixou de depender de um único relógio.

 

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A partir de 20 de janeiro de 2026, o índice mudou seu nome de Nasdaq Crypto Index (NCI) para Nasdaq CME Crypto Index.

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